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O missionário de ouro – Uma historia de fé e superação

Publicado em: 14/11/12 as 13:33 por Micael Batista

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“Eu viajei para Londres e ainda voltei com duas medalhas de ouro. Para quem imaginava que passaria o resto da vida preso em casa não é nada mal”. É com esse misto de humildade e bom humor que o maior nome da bocha adaptada no Brasil comenta o grande momento que viveu e está vivendo após um desempenho espetacular na última Paralimpíada.
Dirceu José Pinto, 32 anos, foi um dos responsáveis por uma marca histórica para o Brasil, que conquistou em Londres seu melhor desempenho na história da Paralimpíada. O País contabilizou 43 medalhas, sendo 21 de ouro, 14 de prata e oito de bronze. Apenas Dirceu conquistou duas medalhas de ouro e uma de bronze, um recorde na bocha adaptada.
Ele levou o bicampeonato da modalidade, classe BC4, nas categorias individual e dupla, tendo como parceiro Eliseu dos Santos. Nesse exato momento Dirceu está treinando para os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. A agenda dele em si é uma maratona.
Além do treinamento para os próximos desafios da bocha adaptada, o atleta coordena um projeto ousado em sua cidade natal, Mogi das Cruzes, que está revolucionando o modo de vida de dezenas de cadeirantes que, através do esporte, estão sendo reintegrados à sociedade.
Mas ele sempre arranja um jeito para fazer o que considera a atividade mais importante de sua vida: pregar o Evangelho. Membro da Assembleia de Deus Ministério Madureira, Dirceu se enxerga como um missionário eleito por Deus para falar especialmente às pessoas que, como ele, enfrentam as dificuldades da deficiência física.
Ao invés de carreira, ele fala em ministério; salvação de almas ao invés de competição por medalhas.
“Hoje tenho certeza que a minha missão na Terra é a de ganhar almas para Jesus através do esporte. Mas não sou eu quem faz isso. Deus me usa para fazer a obra Dele. Eu tenho consciência de que Deus tem me preparado para uma obra que é Dele porque vejo isso acontecer todos os dias”, afirmou.
Vida de desafios
Os pais de Dirceu, Maria e Carlos José Pinto, se mudaram de Rondônia para Mogi quando ele tinha apenas 11 anos.  Foi em Mogi que o sexto filho do casal descobriu sua doença.
O garoto se cansava demais quando ia para escola. Aos doze anos, recebeu o diagnóstico assustador: distrofia muscular de cinturas, uma doença genética incurável. A doença atingiu a parte interna da sua coxa, o abdômen e bíceps, substituindo o tecido muscular por tecido gorduroso. Dificuldade de locomoção, cansaço e dores fizeram parte do seu dia-a-dia.
Apesar do diagnóstico definitivo, o jovem Dirceu decidiu viver como se tudo fosse apenas uma fase ruim que passaria se ele fizesse exercício e tomasse os remédios certos. Mesmo com dificuldades de locomoção e dores, ele continuou na escola e concluiu o segundo grau.
Por acreditar numa cura, Dirceu fez o possível para manter uma boa saúde e condicionamento físico. Ele fazia natação, hidroterapia e fisioterapia. Apenas aos 16 anos que ele se deu conta de que não haveria realmente nenhuma cura.
Com isso veio a tristeza e, com o tempo, a depressão. A cadeira de rodas que era usada ocasionalmente nos momentos de maior cansaço também se tornou definitiva em sua vida.
Dirceu previu então que seu futuro seria sombrio por conta das severas limitações da doença.
Após o término de seus estudos, o jovem mogiano imaginou que poderia nunca mais sair de casa. O que lhe impediu de cair numa espiral de medo e desespero foi a formação religiosa. Dirceu foi “criado” dentro da escola dominical da Assembleia de Deus.
Ele ainda era um menino em Rondônia, mas se lembra claramente das professoras colocando cadeiras de plástico embaixo de árvores para contar histórias bíblicas. “Foi uma experiência que moldou meu caráter”, disse.
Dirceu conta que se comprometeu em ter contato com a Bíblia todos os dias. Em pouco tempo, ele começou a ler a Palavra de Deus de manhã, tarde e noite.
“Ao invés de perder tempo com TV e videogame, assumi essa responsabilidade com Deus. Acredito que li a Bíblia inteira seis vezes”, comentou.
Mas ele persistiu em práticas que hoje considera mundanas. Dirceu vivia uma fase depressiva que combinava bebidas e outros vícios.
Foi quando passou a ouvir a voz de Deus. Literalmente. E a voz dizia que ele estava fazendo tudo errado. No começo, Dirceu pensou que estava louco. Mas o conhecimento bíblico o ajudou a viver a experiência com outros olhos.
“Eu comecei a rir sozinho de pura felicidade. Porque sendo pecador da maneira como eu era e ainda sou, mesmo assim o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, em meio a bilhões de pessoas, estava falando comigo. Eu fiquei alegre de estar sendo corrigido pelo próprio Deus”, afirmou. Dirceu garante que até hoje escuta claramente a voz de Deus.
Trabalho social
Em tom pedagógico Dirceu explica que existem dezenas de modalidades para diferentes tipos de deficiências. A bocha adaptada, explicou, é especial porque é voltada para cadeirantes que não se encaixam em outras modalidades.
“São pessoas que normalmente ficam presas dentro de casa porque são paralisados cerebrais, sofrem distrofia muscular, que é uma doença muscular agressiva, ou são lesados medulares. A bocha adaptada surgiu para essas pessoas”, informou. 
É por isso que Dirceu está engajado na missão de tirar cadeirantes de sua casa e agregá-los por meio do esporte. Ele é coordenador do programa municipal de Paradesporto, que funciona por meio de parceria entre o Trabalho de Apoio ao Deficiente (Tradef)/ Clube Náutico e Prefeitura.
“Nós vamos às escolas, nas igrejas, e buscamos cadeirantes nas casas. Hoje são 72 pessoas beneficiadas. São deficientes em situação de risco social que recebem um salário mínimo, mais vale refeição e plano de saúde. Um projeto que está mudando a vida de muita gente”, enfatizou.
Além dos benefícios sociais, o programa municipal oferece um meio de devolver autoestima às pessoas. “Eu vivi esse drama na pele e por isso estou nesse trabalho. Quando médico dá o diagnóstico definitivo, a pessoa perde sonho e a noção de futuro. Queremos mostrar que elas não precisam ficar presas de suas casas. É possível lutar contra as dificuldades. Deus nos dá a força necessária para conviver com a deficiência. Eu sou prova viva disso”, finalizou.
Recomeço
Aos 19 anos, Dirceu aceitou a Jesus como seu salvador. Ele começou a entender que sua a deficiência havia sido permitida por Deus para que Ele o usasse em Sua obra. Foi naquela época que ele conheceu a bocha adaptada de uma forma totalmente inusitada.
Ele fazia fisioterapia no clube Náutico e via alguns sujeitos “jogando bolinhas”. Para Dirceu, aquilo era pura perda de tempo. “Eu via os caras jogando bolinha e pensava: ‘esse fisioterapeuta ridículo, ao invés de passar atividade, faz os caras jogarem bolinhas’. E esse foi meu primeiro contato com a bocha adaptada”, diverte-se.
Mas o “fisioterapeuta” (na verdade treinador, Ronaldo Gonçalves), fez convite para que Dirceu participasse. Por educação, ele foi um dia com a intenção de nunca mais voltar. Mas descobriu na bocha adaptada sua grande paixão.
Dirceu começou a praticar a modalidade apenas para ter alguma ocupação que o ajudasse com sua condição. Mas ascendeu rapidamente a posição de atleta de alto rendimento. Em 2002 ele foi vitorioso em uma competição regional no Rio de Janeiro.
“Foi um momento de virada. Eu comecei na bocha por hobby e um mês depois disputava o regional no Maracananzinho. Fui e conquistei medalhas. Foi inesquecível. O Maracanã é ali do lado e pude assistir o clássico Flamengo x Fluminense. Eu pensava que minha vida seria minha casa, então, voltei deslumbrado”, destacou.
Dirceu resolveu fazer um propósito com Deus: se ocupasse os primeiros lugares nas competições, testemunharia sobre o amor de Jesus Cristo aonde quer que fosse. Ele só não imaginava que iria tão longe para honrar o pacto.
“Daquele momento em diante eu fui campeão brasileiro individual, campeão em dupla, campeão regional e paulista. Passei a jogar de forma extraordinária. É como se eu fosse Michael Jordan da bocha adaptada”, brincou.
Antes da consagração em Londres, quando foi bicampeão da modalidade, o mogiano viveu uma experiência significativa na China. Lá ele conquistou sua primeira medalha de ouro fora do Brasil e também teve a oportunidade de testemunhar sobre Cristo para os chineses.
Para vencer a dificuldade do idioma, Dirceu recorreu a duas chinesas que falam o português de Portugal. Uma delas o ensinou a dizer “Jesus te ama” na língua nativa. O brasileiro ia aos ginásios para competir e repetia a frase para todas as pessoas que cruzassem seu caminho.
“No primeiro dia os chineses apenas assentiam com a cabeça. Dias depois quando entrava no ginásio, começava a frase todo mundo já completava. E a chinesa que me ajudou com as traduções confessou Jesus como seu Salvador”, comemorou. 
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